sexta-feira, 14 de outubro de 2011
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Ela sorriu, pavloviana. Ele levantou a mão. Ela também levantou a mão. Paradas assim, no ar, por um monte as mãos dele e dela diziam qualquer coisa oi, você aí. Qualquer coisa assim, nada a ver.
Ela era qualquer coisa como uma Psicóloga Que Sonhava Escrever Um Livro; ele, qualquer coisa como um Alto Executivo Bancário A Fim De Largar Tudo Para Morar Num Barco Como O Amir Klink. Ela, que quase não fumava, aceitou um cigarro. E disse que gostava de Fellini. Ele concordou: demais. Para a surpresa dela, ele falou em Fasbinder. Ela foi mais além, rebateu com Wim Wenders. Ele então teve um pouco de medo, recuou e contemporaneizou em Bergman. Ela disse ah, mas avançou ainda mais e radicalizou em Philip Glass. Ele disse não vi o show, e a começou a discorrer sobre minimalismo: um a zero para ele. Ela aproveitou para fazer uma extensa, um tanto tensa, digressão sobre qualquer coisa como Identidades Da Estética Minimalista Com O Feeling Da Bossa-Nova. Ele ouviu, espantado: um a zero para ela.
Ele tentava esquecer uma mulher chamada Rita. Conforme o uísque diminuía na garrafa, Rita misturava-se aos poucos com outra chamada Helena, ele repetia como-amei-aquela-mulher-nunca- mais-nunca-mais
Ela não queria entrar noutra história, porque doía. Ele não queria entrar noutra história, porque doía. Ela tinha assumido seu destino de Mulher Totalmente Liberada Porém Profundamente Incompreendida E Aceitava A Solidão Inevitável. Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de Homem Independente Que Não Necessita Mais Dessas Bobagens De Amor.
Caminhavam assim, lembrando juntos letras de bossa-nova. Ela imitava Nara Leão: se-alguém-perguntar-por-mim.
Tão bom encontrar você, um cantinho, um violão.
Mas tudo em qualquer movimento dizia que pena, baby, o verão acabou, postal colorido, click: já era.
O sol continuava a descer, tomaram três latinhas de cerveja cada um, lembraram da letra inteira de tá-fazendo-um-ano-e-meio-amor- que-o-nosso-lar-desmoronou
Ela era só uma moça querendo escrever um livro e ele era só um moço querendo morar num barco, mas se realimentando um do outro para. Para quê? Eles pareciam não ter a menor idéia.
Ela apertou um botão e, de um gravador, começou a sair a voz de Nara Leão cantando These Foolishing Things: coisas-assim-me-lembram-você.
Reliable
Black Butterflies. Life During Wartime. Pièce Montée. E cheguei aqui. O que adianta discutir sobre política, não é mesmo? É quase como contar piada tomando um cafezinho. Poderia dividir esse pedaço de bolo em duas partes e ficar jogando verdades fora aqui e ali (nada de política hoje), com você. O que importa a cor da parede do gabinete ser vermelha e caracteristicamente esquerdista? Eu estava mesmo querendo pintar uma parede da minha casa assim. Acho que serviu pra eu me habituar e pronto! Só tenho que esperar a psiquiatra, minha vizinha, consertar uma infiltração.
Entrou uma borboleta lilás, era terça-madrugada. Feira. O carro estava lotado. Muito barulho em volta e de repente......... De repente só estava eu e uma borboleta, no vidro embaçado. De olhos grandes, piscando pra mim. Não contive um sorriso, ajeitei o short. E tivemos algumas horas de ... Nada.... E era tão simples, tem sido tão simples que não há palavra melhor, além daquelas muito honestas, uma atrás da outra, que me levaram a discutir sobre a vida corriqueiramente com muita serenidade. Sobre dores, obstáculos, família, comida, viagens. Pousada ali no meu indicador, apontando a direção. A direção de apertadas horas de segurança e honestidade. And i felt full again. É claro que eu deixaria 'tomar meu tempo' mais umas horinhas se eu não tivesse o combo tempo-espaço correndo contra. É certo e claro. Aquele momento não era o de discutir política ao aroma de café pequeno. Nem de falar de amor e você sabia disso. Eu mudo a locução quando eu quiser, é perceptível: Pousada no meu rosto, sabia desde o início que nada ali precisava se fazer mais interessante do que já estava. Por isso abri a janela, você voou com suas asinhas tão diminuídas em virtude do espaço físico que se alongava. Te vi entrar segura, longe desta chuva que está batendo aqui. Eu trouxe algo bem guardado... E confesso baixo.... Fez muito bem.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Tomar café à uma da manhã é algo que eu, de fato, não deveria estar fazendo. Mas selecionando uns filmes pra ver nessa viagem ultra cansativa, a qual eu não estava nem um pouco a fim de fazer, li um um trecho de Tolstoi que condiz muito com o dia hoje.
Eu não faço questão de ir a Belém no Círio, é um evento religioso lindíssimo, mas eu confesso que eu não sou muito católica. O meu lado neorolinguístico fala mais alto.... Bom, não é o que dizem? Cada um com o seu Deus? E mais, além de não ser muito católica, não sou fã de aglomerações..... Convenhamos, essa é uma época em que a cidade fica um caos que eu não tenho a menor vontade de experimentar. Por isso me abstive de estresse no trânsito e estou com os dedos cruzados pra obra do magnífico Villa dei Fiori ter terminado a fim de aproveitar cinco belos dias de calor na piscina.
Acabei de descobrir que tem um episódio de Lie to Me faltando e eu não sei qual o número, isso significa que ele foi engolido pelo meu computador que foi-se o tempo, era organizado. Dos filmes, selecionei: Life during wartime, Pièce Montée, O ciúme mora ao lado (só pra descontrair) e The Ghost Writer que, por incrível que pareça, ainda não vi! Bom, acho que estou bem servida.
Queria mesmo estar bem servida de sono, a final acordar daqui a três horas não estava no pedido. Os dias ficam mais longos quando você tem que sair do trabalho, chegar da faculdade, arrumar malas, passar roupas, varrer a casa, tirar o lixo e no meio disso quando você ainda quer baixar uns CDs novos, restaurar uns aplicativos, selecionar uns filmes...........
Ah sim, o trecho:
"Em verdade, as coisas boas acontecem a despeito de nossos desejos,
por vezes até mesmo em oposição ao que desejamos,
e muitas vezes, após nossa excitação
e sofrimento por causa de
coisas sem mérito"
Queria por a referência, mas não lembro a página e guardei na mala.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Nas primeiras semanas de trabalho lembro de ter pego um caso de um esquizofrênico paranoide. Fiquei o dia todo muito atordoada, me sentindo impotente, principalmente, porque a tutela antecipada dele não foi deferida. Essa notícia, num caso como esse equivale a: Você terá crises ininterruptas durante meses porque o juiz entendeu que a dosagem de medicamentos necessária ao seu tratamento não lhe deve ser fornecida antes da sentença propriamente.
Devo dizer, é uma lição de vida aprender a lidar com as dificuldades das pessoas, aprender a falar com elas. Observar suas reações, uma por uma. Hoje, vi o mesmo assistido sair 90% satisfeito e não porque obteve integralmente o pedido, ou mesmo em parte, mas porque acredita no trabalho que tem sido feito por ele. O que pode fazer um dia terminar melhor do que gratidão?
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